Daqui a alguns meses completo 1 ano trabalhando em casa como freelancer. Um ano equilibrando prazo, pesquisa e compromisso profissional com rotina doméstica e brincadeiras de criança.
Quem acompanha este blog sabe que sou tradutora e que já trabalhei como freelancer antes de ser mãe. Que voltei a trabalhar fora, em empresa, com horário e salário fixo. E que, depois de muito considerar, abri mão do previsível e voltei a trabalhar em casa. Agora, tendo se passado quase 1 ano dessa nova etapa, fiz uma análise do que eu considero bom e ruim de trabalhar em casa após ser mãe.
Prós
- O primeiro ponto positivo para mim, sem dúvida, foi ter mais tempo com meu filho. Agora sempre fazemos todas as refeições juntos (com exceção do lanche da tarde, feito na escola), vamos sempre ao parquinho ou brincamos em casa mesmo. Antes, trabalhando fora, às vezes ele tomava seu leite no carro, no trânsito. Jantávamos juntos, mas o almoço era no berçário. Parquinho, só de final de semana.
- Temos uma rotina mais livre. Às vezes pulo da cama bem cedo para trabalhar, antes que ele se levante e o dia comece. Mas não preciso mais tirá-lo da cama porque eu tinha que sair, porque eu tinha horário a cumprir e precisava deixá-lo no berçário. Isso me cortava o coração, principalmente em dias mais frios.
- Eu faço meus horários e, consequentemente, posso assumir compromissos fora de casa sem precisar dar satisfação. Não preciso mais justificar para chefe que Bento tem pediatra nem sair mais cedo para não perder uma festinha da escola.
- Não enfrentamos trânsito, nem greve, nem obras, nem absolutamente nada no ambiente externo que influencie nosso dia a dia. Nada nos impede de viver nossa rotina, de brincar, de almoçarmos juntos, ou que ele tire uma soneca se quiser. A única intempérie é a chuva, que impossibilita brincadeiras ao ar livre. Mas nunca mais ficamos longos períodos em congestionamentos, estressados, cansados e perdendo tempo de fazer qualquer outra coisa.
- Ele me acompanha na rotina da casa e consigo incorporá-lo ao meu cotidiano. Ele está sempre comigo quando faço almoço, lavo roupa, arrumo um armário ou vou ao mercado. Acho isso muito importante para a educação dele, para que ele veja como uma casa funciona, para que entenda que temos obrigações também e para que nossa casa seja mantida em ordem. E ele entra na dança, com pequenas participações proporcionais ao seu tamanho e entendimento: me ajuda a levar o lixo, a tirar a mesa, a pendurar roupas escolhendo os prendedores "mais legais".
Contras
- Muitas vezes, o trabalho se estende durante todo o dia. Como não dá mais para fazer tudo de uma só vez, trabalho em
intervalos menores. Não há horário fixo. A concentração também, vira e mexe vai pro espaço. Muitas vezes trabalho até de noite, bem depois de Bento dormir, ou em períodos dos finais de semana. Acaba sendo bem cansativo, às vezes sinto como se não descansasse nunca.
- Quando trabalhamos fora, normalmente nos dedicamos apenas (ou com mais
intensidade) durante o expediente. Naquelas 8 horinhas (ou mais, ou
menos, enfim) de trabalho estamos concentradas no campo profissional, o
trabalho é o nosso foco. Às vezes eu trazia trabalho extra para casa, mas era
raro. Em casa eu era tudo, menos tradutora. Agora sou tudo, e ao mesmo tempo.
- Acabo ficando muito no computador, o que significa que filhote me vê trabalhando. Quer ajudar, quer apertar teclas, escolher cores, participar. Se tenho algo urgente a fazer, tento driblar: coloco o pequeno ao meu lado com seus livrinhos de pintura e giz de cera, ou pegamos massinha, carrinhos, um jogo simples estilo dominó e brinco e trabalho ao mesmo tempo. Se não tem jeito e preciso me concentrar, apelo para desenhos.
- Às vezes bate uma sensação de culpa dupla. Sinto como se eu não estivesse trabalhando o suficiente, com a mesma qualidade ou com o mesmo nível de produção de antes. Ao mesmo tempo, também sinto que não dedico ao pequeno tanta atenção como gostaria. Parece que estou fazendo algo errado
ao ficar no computador enquanto ele está em casa, mas é impossível
trabalhar só apenas enquanto ele está na escola, já que ele a frequenta por meio período. Não gosto de recusar trabalho e até me sinto mal quando estou sem nenhum, mesmo que tenha acabado de entregar um gigantesco. Se estou trabalhando fico mal de ver o pequeno brincar sozinho ou pedir minha atenção; se estou com ele, fico pensando em como vou cumprir o prazo combinado.
Estou aprendendo aos poucos a conciliar o trabalho em casa e a maternidade. Enquanto Bento está em casa, só trabalho o essencial - ou se ele tiver alguém para brincar com ele (santa vovó!). Quando está na escola procuro render ao máximo, até para poder ficar um pouco com ele quando voltar. Ou então encaro o trabalho noturno mesmo, paciência.
Por fim, analisando todos os pontos, concluo que não pretendo voltar a trabalhar fora novamente. Nem gosto de lembrar o tempo perdido no trânsito e em deslocamentos, nas horas perdidas longe do meu filho, no cansaço de ficar o dia todo fora de casa e, principalmente, na agonia de não vê-lo aprendendo coisas novas todos os minutos. Conseguir conviver diariamente com meu filho, fazer todas as refeições com ele, brincar entre um trabalho e outro e até mesmo incorporá-lo à rotina doméstica são itens essenciais para mim, para o meu entender sobre maternar. O trabalho em casa é bem cansativo, exige disciplina, compromisso e um eterno equilibrar de pratos entre as várias obrigações. Mas, pensando bem... qual trabalho não é assim?
Há 8 horas






