15 de agosto de 2012

Menino ou moleque?

Eu tinha um pouco de implicância com a palavra moleque. Antes de Bento nascer, sempre que pensava nela, a palavra me vinha associada à travessura, desordem. Muitas vezes me soava até perjorativa. Tanto que, quando descobri que o bebê que habitava minha barriga era do sexo masculino, raramente usei outro termo que não menino.

Menino é uma definição de um sexo, apenas. A palavra, por si só, traz consigo adjetivos de todos os tipos, dá espaço a variações de sentido, é ampla e, ao mesmo tempo, concreta. Menino pode ser esperto, forte, veloz, alto, magro, gordo, baixo, tranquilo, agitado, qualquer coisa. Infinitos termos cabem em menino.

Já moleque não. Moleque, pela definição dos dicionários, é o "garoto travesso" (Houaiss), o que acaba por ser dúbio. Travessuras são coisa de criança, seja menino ou menina. Travessuras são legais, são divertidas, são infantis. Mas aí o mesmo dicionário continua: "indivíduo sem integridade, capaz de procedimentos e sentimentos vis, canalha". E fornece sinônimos: "canalha, diabo, pulha". Pronto, acabou com o moleque travesso.

Outro dicionário (Aulete) segue a mesma linha: começa bem, depois denigre o pobre termo: "menino que vive solto nas ruas, indivíduo brincalhão, gozador..... pessoa sem integridade, sem caráter, safado, patife" e por aí vai. Engraçado que os dois dicionários mencionam a integridade. Coitado do moleque, não só é travesso como é mau caráter!

Acho que sempre pensei em Bento como menino, não como moleque. Menino é fofo. Faz gracinha, faz bagunça, mas mantém a inocência. Porém... conforme foi crescendo, foi deixando a meiguice de bebê de lado e aprendendo mais e mais travessuras. E eu fui absorvendo o termo moleque sem nem mesmo perceber.

imagem: We heart it

Porque é o moleque que sobe em árvore e pega insetos com a mão. É o moleque que brinca solto, que perde o controle da bicicleta e arranha o joelho. É o moleque que passa o dedo na cobertura do bolo e ri estourando balões. É o moleque que se mela de sorvete e que limpa caca de nariz na camiseta. É o moleque que pula do balanço quando está bem alto e que sobe no escorregador pela rampa. É o moleque que descobre o mundo com curiosidade e volta imundo pra casa após suas aventuras.

E percebi ainda não apenas a liberdade do moleque, mas também a do gênero. Porque menina também pode ser moleque, eu mesma fui! Andava de carrinho de rolimã, descia ladeira de bicicleta, subia em muro. Tenho 4 cicatrizes: 2 no joelho, uma no braço, uma no queixo. Levei ponto, trinquei dedinho da mão e usei gesso. Fui sim uma criança moleca.

Então eu fiz as pazes com a palavra moleque. Que meu filhote seja livre, que se divirta sem amarras e descubra muitas e muitas formas de brincar. Mas, se possível, sem muito sangue e braço quebrado, por favor, que o coração aqui não é de moleque, é de mãe mesmo.
 
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