Semana passada rolou a blogagem coletiva sobre Infância e Consumismo e eu não consegui escrever meu post a tempo. Mas esse é um assunto tão importante que queria me manifestar mesmo após a blogagem, contando um pouco como eu lido com o tema por aqui.
Eu sou tradutora de inglês, trabalho com isso já há alguns anos. Mas, antes de ser tradutora, sou publicitária. Cursei faculdade de publicidade, trabalhei em agências de propaganda, no departamento de marketing de uma multinacional e em um portal na internet (que nem existe mais). Deixei a área há 6 anos, mas conheço um pouquinho do lado de lá.
Na faculdade, estudamos vários casos de marketing e publicidade, denominados na área como
"cases". Analisamos tanto os cases de sucesso como os controversos, os equívocos, os tiros que saíram pela culatra. Alguns dos cases mais polêmicos são os relacionados à publicidade direcionada ao público infantil. Os que vou citar aqui são antigos e famosos, é possível que muita gente se lembre:
- Tesourinhas do Mickey, comercial de 1992 - trazia uma criança brincando com a tesoura e repetindo incessante e repetidamente: "eu tenho, você não tem". Era veiculado em duas versões, um com um menino, outro com uma menina. O caso mais clássico de propaganda abusiva e inadequada para crianças. Para ver o comercial, clique aqui e aqui.
- Chocolate Batom, também de 1992 - um menino segurava o chocolate preso como um pêndulo, brincando de hipnotizar a "amiga dona-de-casa" dizendo "compre batom, compre batom". Para ver, clique aqui.
- Comerciais de uma marca de cerveja, veiculados em 2001, com uma tartaruguinha e um siri. Os animais provocavam os seus companheiros de cena humanos, disputando com eles o produto. A tartaruga até fazia dribles de futebol, em uma alusão à famosa paixão nacional. Um deles mostrava inclusive a tartaruga bebendo a cerveja. Para ver o comercial com a tartaruga, o caminho é aqui. Já os do siri estão nesse link. O sucesso foi tanto que gerou mais vários outros comerciais, criando uma série.
O comercial da tesoura teve a veiculação proibida pelo absurdo explícito de incentivar o consumo puro e simples, apelando para a disputa, para o ser melhor que o outro por possuir um objeto que aquele não possui. Já os comerciais da cerveja também foram muito comentados, mas por associar bebida alcoólica a animais
humanizados, o que fez com que crianças atentassem ao comercial.
Todas essas propagandas são antigas, de uma época em que não se questionava tanto o consumismo e a ética como hoje. Mas são exemplos que retratam bem onde a
publicidade pode chegar. É fato que os órgãos, agências e veículos de comunicação estão mais atentos às peças que aprovam, e acredito que muito disso se deva ao posicionamento da sociedade. A partir do momento em que vemos uma mensagem abusiva e fazemos barulho para que ela pare de ser veiculada, nossa sociedade evolui. Mas temos muito a melhorar ainda.
Por exemplo, em casos nos quais não estamos falando de publicidade em mídias, mas do consumismo em nosso cotidiano. Dia desses fui passear com Bento em uma livraria e, na volta, passei em uma farmácia. Enquanto eu aguardava o balconista buscar o medicamento que solicitei, Bento brincava com shampoos, um deles em formato de carro. Já ciente de sua paixão por carros e sabendo que ele estava mesmo precisando de shampoo, aceitei levar o produto. O balconista, esperto, viu a oportunidade de venda e me ofereceu o kit, com shampoo e condicionador, cujo recipiente também vinha em formato de carro. Até perguntei o valor, mas agradeci e recusei. Ele insistiu e, ao ver Bento, pegou o kit e o chamou para mostrar o produto. Aí meu sinal interno tocou: peralá, oferecer um produto a uma criança? Óbvio que ele iria querer e me pediria para comprar, mas quem decide a compra sou eu! Não deixei, coloquei minha mão na frente e disse "não, oferecer a ele não! Pra mim tudo bem, mas pra ele é sacanagem!".
O consumismo está tão enraizado em nosso cotidiano que muitas vezes nem percebemos sua influência. Nesse exemplo da farmácia ficou bem claro para mim como as pessoas muitas vezes nem se dão conta que estão submetendo crianças a uma decisão que não cabe a elas. Vi no balconista uma feição de espanto, surpreso com minha reação em impedir que ele oferecesse o produto ao meu filho. Tenho certeza que ele deve ter feito a mesma coisa em outra ocasião sem receber reprovação de pais.
Como qualquer criança, Bento pede. Às vezes é um brinquedo de algum amiguinho, um doce, um petisco no mercado. Mas procuro frear, dar limites, para que ele entenda que nem sempre terá o que pede. Nem sempre posso comprar, nem sempre aquilo que ele quer é adequado a ele, àquele momento ou aos nossos valores. Nem sempre podemos ceder. Quando as coisas são oferecidas e concedidas de forma desenfreada, sem filtro, perdem o valor.
Bento assiste desenhos, já tem até seus preferidos. Mas da tv aberta, o
único canal que ele assiste é Cultura. Ele adora Cocoricó, desde bem
pequeno. Já da tv paga, o que ele assiste é NickJr, canal de desenhos
que simplesmente não veicula propaganda - os intervalos entre os
desenhos são preenchidos por clipezinhos das próprias atrações do canal.
A quantidade de propaganda exibida entre os desenhos na maioria dos
canais, mesmo da tv paga, é absurda. Insuportável. Por isso, o DVD reina absoluto por aqui. Para
falar a verdade, a tv tem tempo determinado para ficar ligada aqui. Não gosto de tv ligada o tempo todo, acho perda de tempo e disperdício com o que se poderia aproveitar fazendo outras coisas.
Em resumo: não sou contra a publicidade, mas a favor do bom-senso e da ética. Não sou contra oferecer um produto e enfatizar seus benefícios, mas a favor de que isso seja feito ao público adequado, aquele que vai efetivamente colocar a mão no bolso. Apelar para desejos (reais ou não) e comportamentos de crianças, principalmente dizendo a elas, de forma explícita ou implícita, que ela é melhor/ mais bonita/ mais legal/ mais qualquer coisa porque tem aquele produto, isso sim eu sou contra. E, por fim, procuro cuidar para que meu filho entenda o valor real das coisas, que na maioria das vezes nem é monetário. Um objeto simples escolhido e comprado com amor vale mais do que um objeto caro e vazio. Assim como uma tarde de brincadeiras e passeios vale muito, muito mais para ele, do que qualquer objeto que venha numa caixa.
Há 5 horas



