Muito antes de engravidar, quando pensava em filhos, família e o pacote todo, sempre disse que, se um dia tivesse um menino, ia tentar criá-lo de uma forma um pouco diferente de como vejo muitos por aí.
Nossa sociedade ainda é bastante, bastante machista. Homem "não pode" isso, mulher "não pode" aquilo. É verdade que muito mudou nos últimos tempos, mas boa parte das atitudes e objetos ainda é separada por "coisa de mulher", "coisa de homem". As inevitáveis e ingratas tarefas domésticas, por exemplo, na maioria das casas ainda é a mulher que assume. Trabalhando fora ou não, tendo crianças para cuidar ou não.
As gerações mais recentes têm buscado fazer diferente, com homens mais participativos, dividindo tarefas. Mas eu vejo, em boa parte dos homens, uma grande dificuldade em assumir as tarefas da casa, seja por não quererem fazê-lo, seja por simplesmente não saberem como agir. Maridex, por exemplo. Vira e mexe, ao me ver fazer alguma coisa da casa, pergunta: "
precisa de alguma coisa? quer ajuda?" - mesmo vendo o que se há para fazer. Outro dia me disse, com essas palavras: "
me diz especificamente o que você quer que eu faça". Não tive como não rir. Ou seja, o que vejo é até uma participação maior masculina nessas tarefas, desde que a gente instrua, diga o que é preciso fazer. Iniciativa já são outros quinhentos.
E é isso que pretendo fazer diferente na criação do Bento. Ele pode ajudar a mamãe em casa sim, em pequenas tarefas compatíveis com ele, proporcionalmente à sua idade e entendimento. Mas mais do que isso: vai cuidar do que é dele, do que é nosso. Dos seus brinquedos à nossa casa.
Um exemplo é quando há brinquedos pela casa toda depois de uma sessão de brincadeiras. Carrinhos embaixo da mesa, blocos de montar embaixo do sofá, bolinhas pela cozinha - até dentro do banheiro da gata. O problema não é o brincar e bagunçar, isso faz parte. Mas se o arrumar depois fica só para mim, não acho certo. Também estou fazendo outras atividades, também quero descansar, então simbora todo mundo arrumar!
Organizar brinquedos é algo simples, que vou ensinando aos poucos, porque acredito que deva ser uma tarefa dele. Ele precisa aprender a cuidar dos seus pertences, desde cedo. Precisa aprender que precisamos de espaço para andar pela sala. Precisa aprender que bagunça também tem hora e lugar. E que todo mundo gosta de casa limpa e arrumada.
E a criação que pretendo repassar não pára por aí. Ele gosta de me acompanhar e "me ajudar" quando faço alguma tarefa, se acha todo grande. Aí aproveito para ensinar pequenas lições de cuidados com nossa casa. Quando vou tirar o lixo, ele sempre me pede para ir junto. Então dou um saquinho bem leve para ele levar comigo - e ele adora participar. Casa limpa para todos!
E cozinhar então? Outro dia ele queria ficar comigo na cozinha enquanto eu fazia o almoço, mas não queria seus brinquedos. Então improvisei e disse que ele iria cozinhar comigo: peguei duas panelas minha, uma colher de pau e uma de plástico, macarrão colorido cru e
voilá! Meu pequeno chef cozinhou altos pratos, me deixando fazer o almoço todinho. E assim vou ensinando que menino também cozinha - além de despertar seu interesse pela comida que "ele fez".
Com tudo isso, tento ensinar que "coisa de menino" e "coisa de menina" é bobagem. Que menino pode brincar de bola e de cozinhar. Que ajudar a manter a casa limpa e arrumada é obrigação de todos. Que ele também tem suas tarefinhas pequeninas, não só a mamãe.
Depende de nós, mães de menino, formar futuros homens mais abertos às divisões e à igualdade, que não reproduzam um machismo ainda tão enraizado em nossa sociedade. Meninos que participam da rotina da casa, que entendem que tudo aquilo também precisa de cuidados para ser mantido. Afinal, se a casa é de todos, a responsabilidade por ela também deve ser.