Continuando a série de coisas que aprendi com meu filho, falarei agora sobre expectativas e aceitações. Sabem quando a gente imagina alguma coisa que está para acontecer? Quando temos tanta certeza que algo vai ser de determinada forma que nem consideramos outra possibilidade?
Vira e mexe lemos/ouvimos por aí que as crianças precisam aprender a lidar com pequenas frustrações. Precisam entender que nem tudo acontece como gostaríamos. Não podemos comer o que quisermos, nem ir aonde der na telha a qualquer horário, nem falar o que vier na cabeça. Tal lição leva tempo para ser ensinada, e haja habilidade para lidar com os momentos de contestação dos pequenos.
Pois bem. Mas e quando somos nós, as mães, que temos expectativas e nem tudo sai como havíamos imaginado?
Toda grávida passa a gestação imaginando a carinha que o filhote terá. E eu, claro, não fugi à regra. Imaginei Bento com características minhas e do pai, misturadas. Imaginei um menininho de cabelos castanhos, olhos grandes, com traços de cada progenitor. E o que acontece logo que ele nasce? Sai do forno um menininho com pouquinho cabelo (ou seja, o cabelo real eu só iria conhecer meses depois) e com todos os traços do pai. Sim, eu disse TODOS. Da mãe restou a brancura da pele e, segundo alguns, o nariz. Algum tempo depois, quando cabelo e olhos ganham as tonalidades definitivas, o que temos? Um meninho de cabelo loiro-escuro (sim, eu disse loiro), cacheado, e olhos verde-garrafa.
Antes que me perguntem se ele é filho do padeiro, reafirmo que ele é a cara do pai, cuspido e escarrado. A loirice e a cor dos olhos vieram da minha mãe. Ele é o menininho mais lindo e fofolético e esmagável da face da Terra, mas lembro de, nos primeiros meses, ficar chateada quando todos comentarem que ele não se parece em nada comigo. Até uma desconhecida, vendedora de loja, vendo nós três juntos me perguntou: "
ele é seu filho? nossa, não tem nada a ver com você" (ênfase no nada, reparem).
Esse exemplo é só uma brincadeira, na verdade. Bento podia ter nascido azul com bolinhas amarelas que eu ia amar e achar lindo do mesmo jeito. A real queda de expectativa das mães começa quando surgem os probleminhas. Quem na gravidez sonhou com um bebê com refluxo, que não dormia por mais de duas horas, que choraaaaava em horários indeterminados? Quem sonhou com uma criança que dá trabalho para dormir mesmo depois de maiorzinha, ou que come feito passarinho? E quem sonhou com uma criança que desobedece, que contesta, que sai do castigo, que não entende repreensão e poucos minutos depois repete a travessura?
Ninguém né. Todo mundo sonha com o bebê dos comerciais. O que mama que é uma beleza e dorme feito anjo, de preferência a noite inteira, e logo no primeiro mês. O que sorri o tempo todo. O que come de tudo e detesta porcarias e doces. O obediente, gentil, carinhoso, que entende de primeira qualquer pito.
O choque do filho que queríamos ter
versus o que temos é maior no começo, nos primeiros meses, que costumam ser os mais difíceis. Depois a gente vai entendendo que o que tivemos não é um bebê de comercial, não é um robozinho. É uma pessoa em miniatura, com suas particularidades, suas vontades, suas limitações. Que pode não dormir bem hoje, mas dormirá bem um dia (sim, vai!), quando nos requisitar menos durante a noite. Que pode não raspar o prato, mas come o suficiente para ela. Que fica doente, tem medo, fica confusa, sente dor.
Expectativas são bacanas, nos impulsionam e nos fazem sonhar, mas nem sempre viram realidade. E essa foi mais uma lição que aprendi com meu pequeno. Aprendi a aceitar que filho tem o tempo dele para tudo. Aceitar que tais expectativas são insignificantes perto da grandiosiade que é criar um filho. Aceitar que ele me escolheu para ser sua mãe, e eu o recebi para ser meu filho. Do jeitinho que ele é.