Na semana passada a
Lia escreveu ótimos posts sobre educação. Quem não leu,
corre lá - vale a pena. Tenho refletido bastante sobre o assunto e resolvi relatar como temos lidado com isso por aqui. Senta que o post é longo!
Antes de ser mãe, uma das coisas que eu mais tinha medo ao pensar sobre filhos era exatamente esse: educação. Não tinha medo do parto, da amamentação, do dia-a-dia, das mudanças que a nova realidade traz. Mas tinha medo de como encararia o processo diário de educar uma criança, de ensinar o certo e errado, de passar valores. E é mesmo bastante difícil e desafiador. Uma tarefa diária. Porque por mais que saibamos a teoria, colocá-la em prática é outra história.
De um lado está o filho. Uma pessoinha em miniatura, ávida por aprender, com personalidade própria. Que tem seus dias de fofurice, de candura, de tranquilidade, mas também tem seus momentos de cansaço, de dor, até de estresse. Do outro lado, os pais. Que, da mesma forma, oscilam entre pacientes e serenos e cansados e apreensivos.
Há situações em que tudo funciona bem e tudo sai conforme esperamos. Pai/mãe diz uma vez, filho obedece, sem estresse. Há outras em que nada acontece como queremos. Daí ficamos chateados-irritados-bravos porque o filho desobedeceu, fez manha, fez birra. E aqui vem o ponto-chave da educação. Nesses momentos, podemos manifestar nosso descontentamento de várias maneiras. Às vezes demonstramos claramente nossa irritação repreendendo a criança de forma brusca, impaciente, até agressiva, como por meio de gritos. A forma ideal, que inclui paciência e calma para explicar à criança a atitude que ela cometeu e porque fazer aquilo é errado, nem sempre é seguida.
Uma coisa que Bento faz sempre que está bravo ou é contrariado é jogar coisas no chão. Por exemplo, dia desses estávamos brincando de massinha. Em determinado momento ele cansou e queria brincar de outra coisa. Eu disse então para guardarmos as massinhas antes de passar para a próxima brincadeira. Ele não queria, eu pedi novamente, disse algo como "me ajuda a guardar as massinhas pra gente terminar mais depressa". Ele se recusou de novo e começou a jogar os potes e tampas longe, pela sala e debaixo do sofá. É essa a minha hora de repreendê-lo, ensinar que esse não é um comportamento bacana e como ele pode externar sua frustração.
Ontem tivemos outro exemplo. Logo pela manhã ele pegou uma tampa plástica da cozinha para brincar. Quando cansou, deixou a tampa no chão e foi fazer outra coisa. Pedi para que ele pegasse e colocasse onde ele tinha encontrado, em cima da pia. Ele não pegou. Pedi de novo, mantendo a calma e o tom de voz normal e pedindo por favor (o que sempre faço aliás). Ele pegou a tampa e jogou debaixo de um armário. Peguei-o pela mão, mostrei a tampa e pedi novamente para que pegasse. Ele disse não, empurrou a tampa ainda mais e me empurrou. Levei ele para o cantinho, expliquei que ele estava de castigo e deixei lá por 2 minutos. Ele chorou, chorou e chorou. Não disse nada até o prazo terminar. Quando se passaram 2 minutos fui até ele. Me abaixei, enxuguei o rostinho, e ele começou a se acalmar. Disse: "
você ficou de castigo porque não obedeceu, não pegou a tampa e empurrou a mamãe. Não pode fazer isso filho, a mamãe não gosta, fica triste com você". Pedi um abraço, ele me abraçou, já mais calmo. Disse para ele pedir desculpas e ele "
dicupa".
Esses comportamento de empurrar/bater eu acho péssimo. Não sei onde ele aprendeu isso, já que nunca o repreendemos dessa forma. Percebo que algumas características de rebeldia são mais nítidas em meninos, principalmente a agressividade. Em geral, meninas são mais calmas, e mesmo quando estão irritadas não demonstram esse traço agressivo que é inato em qualquer menino, sendo mais destacado em uns do que em outros. E os
terrible twos só contribuem ainda mais.
Eu já gritei com ele. Já o repreendi de forma brusca. E, logo depois, senti uma culpa enorme. Me senti um monstro por ter descarregado nele um estresse que não era motivado por ele nem por suas atitudes. Ele é uma criança, está aprendendo e vai sim errar muitas vezes. Como eu, aliás, mesmo já sendo adulta (ou não, rs). Além de não funcionar, o grito gera mais estresse. Quando recorri a ele, percebi que Bento ficou mais nervoso ainda, chorou mais alto e demorou mais a se acalmar.
Já pude perceber também o quanto a repreensão firme, mas carinhosa, exerce muito mais efeito do que o grito. Uma coisa que diariamente gera contestação da parte dele é sair do banho. Ele a-do-ra tomar banho, e nunca quer sair quando peço. Então, já vou dizendo antecipadamente que o banho vai acabar. Digo: "pode brincar um pouco na água, mas logo a gente vai sair tá?". Dali a poucos minutos digo de novo: "está chegando a hora de sair"; "vamos sair para ver um filminho/ler um livro/ver se o papai chegou?"... até tirá-lo efetivamente do banho. Mas, apesar de toda essa preparação, ele
sempre reclama para sair. Às vezes mais, às vezes menos. Em um dia em que percebi que estava bastante cansado, ele saiu do banho totalmente contrariado, chorando, empurrando a porta. Eu o abracei, esperei que se acalmasse, mantendo a voz em tom sereno. Em segundos ele se acalmou e pude enxugá-lo e vesti-lo sem estresse.
É inegável que esse é o melhor caminho. A terapia do abraço funciona mesmo, principalmente quando os pequeninos estão bastante cansados. E até para nós mesmos... um abraço faz milagres quando estamos tristes e estressados. É um freio para aquilo que está nos chateando, uma forma de parar e respirar.
Mas nem sempre consigo. Sou humana, e sou bastante impulsiva. Às vezes simplesmente esqueço essa teoria toda e não consigo raciocinar. Eu também estou aprendendo, e preciso me reeducar para ensinar outra pessoa. Até então, eu só tinha que lidar com minhas próprias frustrações. Agora, preciso ensinar alguém a lidar com as dela. É como eu disse no começo do post: educar e estabelecer limites é um exercício diário, para ele e para mim.
E, como a Lia concluiu lindamente no post dela: da mesma forma que modificamos nossa alimentação para darmos um bom exemplo aos pequenos, que tentamos passar a eles tudo aquilo em que acreditamos, também é necessário mudar nossa postura quando algo dá errado. Não podemos simplesmente jogar tudo para o alto porque não deu certo. Devemos, isso sim, aprender a lidar com o problema, a fazer do limão uma limonada. E ensinar nossos filhos a fazer a mesma coisa.