Ontem Bento voltou para a escolinha, para o tal curso de férias, um esquema especial de funcionamento durante as férias escolares. Nos primeiros momentos, Bento grudou em mim e não queria ficar. Mas esse grude durou... uns 5 minutos, no máximo. Logo viu a piscina de bolinhas e foi correndo brincar. À tarde, ao buscá-lo, estava feliz da vida e continuou o dia de brincadeiras correndo pela calçada, jogando bola em casa, brincando de pega-pega com o pai.
Hoje já acordou sozinho pela manhã, às 6:30 (ontem precisei acordá-lo). E, após o mesmo mini-choramingo ao chegarmos à escola, pegou a tia
Mássia (Márcia) pela mão e foi para a cozinha pedindo
acha (bolacha).
Por um lado, tudo isso me tranquiliza por saber que o pequeno ficará bem enquanto trabalho, mas me traz de volta alguns dilemas. Para explicá-los, volto um pouco no tempo.
Antes de engravidar, eu trabalhava como tradutora
freelance, em casa. Recebia os trabalhos, fazia tudo em casa e devolvia pronto no prazo estipulado. A grande vantagem da liberdade de poder fazer os meus horários (o que incluía começar a trabalhar mais tarde, se eu quisesse, ou tirar um dia de folga) trazia também a desvantagem de, muitas vezes, precisar trabalhar em finais de semana e feriados (não por que eu quisesse, mas para atender prazos de trabalhos que chegavam às sextas-feiras).
Até que, durante a gravidez, recebi uma proposta para trabalhar como interna, com horário determinado, na empresa em que estou hoje. O que mais pesou foi ter um salário fixo, já que, como
freela, ganhava por trabalho, ou seja, era uma remuneração variável, que rendia meses bons e outros ruins financeiramente. Com a proximidade da chegada do pequeno, ter um salário fixo e bom era uma segurança para nós. Na época, morávamos em outra cidade e marido também estava trocando de emprego. Tudo isso contribuiu para que eu aceitasse a proposta.
Porém, como mãe de primeira viagem, não sabia o que estava por vir. Não sabia o quanto um bebezinho demanda da gente, desde cuidados e atenção até em brincadeiras. Quando voltei a trabalhar, Bento tinha 5 meses e estreou na escolinha. Até que foi tranquilo no princípio, mas comecei a sentir saudades de estar sempre com ele.
Conforme ele foi crescendo e mostrando outras necessidades, vi que estar na escolinha não era assim tão ruim. Vi que isso me proporcionava um pouco de tempo, de contato com outras pessoas, de aprender coisas novas, de poder almoçar com calma sem precisar engolir a comida.
Quando passamos um período grande juntos agora no período das festas de fim de ano, vi o quanto é cansativo ficar o tempo todo com ele. É uma delícia? É. É divertido, gostoso, enriquecedor? Sem dúvida. Mas também é exaustivo. Porque ficar com ele em casa não significa unicamente brincar. Significa inventar novas atividades, criar várias brincadeiras diferentes... mas também fazer comida, cuidar da casa, das roupas. E as tarefas domésticas são a parte mais chata e ingrata de quem trabalha em casa.
Nunca tive empregada. Tenho uma faxineira que vem uma vez por semana, mas sempre sou eu quem lava a roupa, faz comida e supermercado, cuido da gata, lavo louça, mantenho a casa em ordem. E, antes que alguém pergunte, marido até ajuda de vez em quando.
Nessa semana a
Mari fez um
ótimo post sobre o dilema da maternidade x carreira. Realmente, quando as festas de fim de ano estavam acabando, estava até ansiosa por voltar ao trabalho, pois estava cansada de ficar em casa. Concordo com ela que uma mãe realizada é uma mãe melhor - seja qual for sua opção, trabalhar fora ou ficar em casa com os filhos.
Daí que cheguei ao meu dilema. Gosto de trabalhar fora, mas queria passar mais tempo com o Bento. Gosto de ter minhas coisas, meu dinheiro, meu tempo, mas é extremamente cansativo chegar em casa após um dia de trabalho, com Bento também cansado da escolinha e pedindo atenção, e ainda ter que cuidar da casa e fazer jantar. Para mim, limpar casa é uma perda de tempo enorme (já que logo estará tudo sujo de novo), apesar de essencial, claro. E não aguento fazer as tarefas domésticas depois que ele dorme, quase 21h, já que levanto às 5h40 para trabalhar e também preciso descansar.
Se Bento nascesse hoje, eu faria algumas coisas diferentes. Não voltaria a trabalhar com ele tão pequeno. Esperaria ele fazer pelo menos 1 ano antes de colocá-lo na escola. E talvez em meio período, não integral. Aí sim, poderia voltar ao trabalho e, ao mesmo tempo curtir o pequeno. Ou então, nem voltaria a trabalhar fora, mas continuaria trabalhando de casa, como era antes. Não acho que conseguiria parar de trabalhar e me dedicar só à casa e família (e admiro quem consegue!), acho importante fazer algo diferente das atividades domésticas, algo nosso, que nos faça sentir úteis e reconhecidas (pois, como bem disse a Mari, "
dentro de casa ninguém reconhece uma pia brilhando e todos chamam de sorte a filha bem educada e o bebê feliz" - leia o post completo dela
aqui). E mesmo se estivesse trabalhando em casa, acabaria colocando Bento na escola em meio período em algum momento, para que eu conseguisse trabalhar (pois levá-lo para
trabalhar comigo comprovou que é complicado conciliar as coisas).
Acho que, daqui a algum tempo, vou voltar a trabalhar em casa, por vários motivos: para ficar mais com o Bento, porque é o tipo de trabalho que mais gosto de fazer (na empresa tenho outras funções que não tinha como tradutora externa), porque vamos nos mudar esse ano para uma casa que fica mais longe do local de trabalho (e, em SP, isso significa tempo perdido, trânsito, estresse), porque quero ter mais um filhote. São muitos motivos. Na verdade, acho que toda mãe passa por esses dilemas. Mas acho que, o mais importante, é nos sentirmos bem, realizadas, trabalhando fora ou não, pois isso se refletirá na mãe que seremos para nossos filhos.