Dia desses li um
post no Comer para Crescer sobre obesidade infantil. Lembrei do
ótimo texto da Anne sobre o assunto, com dicas bem bacanas. E lembrei que eu mesma já falei sobre isso
aqui, tempos atrás. Mas vou ter que voltar ao assunto pois, recentemente, presenciei situações preocupantes.
Conversando com uma amiga, ela me conta que o filho de 5 anos nunca comeu bem. É um menino lindo, esperto, ativo, sorridente. Mas que geralmente come pouco no almoço e jantar, não gosta de legumes, verduras e frutas. Aí que, em nossa reuniãozinha de amigos, surge um bolo e bacias de pipoca. O menino diz: "
hummm que delícia" e come feliz. Mais tarde, pedimos pizza. E o garotinho degusta pedacinhos de pizza de calabresa. Não comeu muito, nem chegou a um ingerir um pedaço inteiro. Mas comeu. Com refrigerante para acompanhar.
Enquanto isso, Bento, que estava presente, ainda estava se recuperando de uma infecção de garganta. Ou seja, não estava comendo como de costume. Mas comeu um pedaço de bolo (de cenoura) sem cobertura, uma banana, um pouco da papinha no jantar (com legumes e arroz) e apenas a borda da pizza, sem recheio nem queijo derretido. Para beber, água. Não quis suco, e não ofereci refrigerante.
Minha amiga achou estranho. Disse: "
ele não come chocolate? Mas chocolate é bom, mamãe...". E, enquanto todos bebiam refrigerante, me pergunta "
Ele não toma refrigerante?? Tadinho...".
Essa mesma amiga contou de outra cujo filho tem a idade do Bento. O mesmo que mencionei
aqui que, aos 8 meses, comia bis, tomava refrigerante e comia "
de tudo, até feijoada". Só para lembrar, o bebê tinha 8 meses. Agora, a criança tem 1 ano e meio e esse "comer de tudo" inclui bolacha recheada e uma mamadeira de coca-cola. Se a mãe oferece suco, não toma, pede refrigerante. O problema maior não é ele pedir. É ele receber.
Não sei a frequência em que as crianças ingerem esse tipo de alimento. Não sei como é a rotina das famílias, como é a alimentação diária. E é claro que cada um sabe o que é melhor para o filhote. Mas não acho que oferecer porcaritos, doces, refrigerantes e alimentos gordurosos desde cedo vá criar hábitos saudáveis.
Bento come doce só em festas. Refrigerante ele só experimentou, estranhou o gás e não quis mais. Outro dia fomos a um churrasco e alguém disse, levantando a garrafa de refrigerante: "
Olha Bento, coca-cola!". Ele ficou olhando com cara de paisagem, virou pra mim e pediu "
águ" (água).
Outro dia estávamos em um restaurante e, como Bento já tinha almoçado, brincava no cadeirão encostado na mesa. O garçom chega e pergunta se pode dar um pirulito pra ele. Eu digo "
pode, ele já almoçou" (aliás, achei bem bacana o garçom ter perguntado antes de oferecer a guloseima). E então ele traz 2 pirulitos de morango para o Bento, que acha lindo, dá gritinhos de emoção. Abro um, ele dá uma lambida, faz uma cara horrível e larga. Diz: "
ôto" (outro). Abro o outro e acontece a mesma coisa. Ele larga os dois pirulitos em cima do prato e resolve brincar com o papel da embalagem.
Como não tem o hábito de consumir porcarias, Bento simplesmente não tem interesse. É claro que isso vai mudar conforme ele crescer, principalmente quando ele vir os amiguinhos se deliciando por aí. Porém, um paladar acostumado a ingerir frutas, verduras e legumes desde cedo naturalmente rejeita porcarias. Sempre procurei incluir na alimentação do Bento ingredientes saudáveis. Sei que, futuramente, ele vai experimentar tais tranqueiras e vai gostar. Mas cuidar para não fazer deste um hábito é trabalho dos pais.
Aliás, são os pais que devem dar exemplo de boa alimentação em casa. Pais que não consomem alimentos saudáveis não criam o hábito nos filhos. Exemplo é tudo.
Outro fato importante é que a correria das grandes cidades não incentiva o preparo de alimentos saudáveis. Comprar legumes e frutas frescos na feira (o que faço todos os domingos) não é prático. Preparar refeições todos os dias demanda tempo. E sabemos que nem sempre dispomos desse tempo ou mesmo de paciência (ou, no meu caso, de talento culinário...).
Além disso, crianças têm mesmo fases em que comem menos. Ou porque estão doentes, ou por estarem na seletividade alimentar, ou por não receberem incentivos adequados, ou por simplesmente terem essa personalidade. E, quando o filho não come, qualquer garfada aceita é motivo de comemoração. Só que essa garfada deve ser de comida, não substituída por uma guloseima apenas para ver o filho comer.
O post do Comer para Crescer traz um dado interessante: "
as comidas industrializadas não precisam desaparecer do cardápio (...), mas precisam ser usadas com bom senso. Não deve ser dada, por exemplo, para crianças com menos de 1 ano. Nem deve ser o que aparece mais no cardápio semanal. para evitar tanto a obesidade quanto as deficiências nutricionais, é necessário ter uma alimentação variada. Que pode ter o hambúrguer e a lasanha pronta, mas tem de ter o feijão com arroz e salada também. O suco de caixinha num dia e o suco natural no resto da semana". (para ler o post completo, clique
aqui).
Esse meio-termo ajuda bastante. Oferecer guloseimas o tempo todo não dá, mas exclui-las completamente acaba por gerar curiosidade, pois fatalmente um dia a criança vai se deparar com elas. Sem radicalismos nem excessos, o importante é proporcionar uma alimentação variada, com opções coloridas, com diferentes nutrientes, usando a criatividade para criar pratos atrativos. Não apenas para tentar conter o aumento dos índices de obesidade infantil, mas para criar bons hábitos alimentares e, futuramente, adultos mais saudáveis.