15 de abril de 2014

A vida social antes e depois dos filhos - parte 2

Como contei no post anterior, após Bento nascer nossa vida social ficou mais restrita. Não deixamos totalmente de ter nossos passeios de adulto, mas limitamos os eventos, em número, situação e companhia.

Um fator que enfatizei é que nós não tínhamos como contar com familiares para cuidar de Bento enquanto saíamos e, por isso, sempre o levamos. Até que minha irmã, que morava na Itália, voltou ao Brasil. E teve sua filhota, uma menina linda que hoje está com 3 anos e meio. E nós voltamos a morar na mesma cidade.

Mas até então, não tinha surgido oportunidade para que os primos dormissem um na casa do outro. Os dois brincam, se dão bem, mas dormir é outra história. Principalmente pelo já conhecido medo do escuro. Até que surgiu um convite para um casamento. E o convite era restrito a mim e marido. No children included.


Ficamos então com duas opções: ou Bento fica com alguém, ou não vamos. Conversei com ele e com minha irmã e resolvemos fazer o teste: ele dormiria lá na casa da prima. Ele só me perguntou se, quando quisesse ir embora, se eu iria buscá-lo. Eu enfatizei que sim, que a hora que ele quisesse, mesmo que de noite.

No dia do evento, ele estava bem animado de ir para a casa da prima. Separou alguns brinquedos, que coloquei em sua mochila junto ao pijama e escova de dentes. Ao chegarmos lá, os dois brincaram tanto que, na hora da despedida, nem quis se alongar.

E, enquanto partimos para o casamento, minha irmã preparou um lanche, colocou o colchão na sala e fizeram um "cineminha". Ficamos com os celulares a postos, liguei após acabar a cerimônia e antes da festa. Estávamos preparados para sair da festa a qualquer momento. Se ele não quisesse dormir lá, se chorasse, se pedisse por nós, iríamos buscá-lo a hora que fosse.

Mas o celular não tocou. Eu o verificava de meia em meia hora, mas nada. Conseguimos aproveitar a festa, jantar com calma, até dançar. Não fiquei 100% sossegada por ser nossa primeira vez sem ele, mas deu para curtir bastante. Saímos da festa 4 da manhã!


uma fotinho pra registrar nosso primeiro vale night!

Na manhã seguinte... Sete da manhã uma mensagem da minha irmã dizendo que Bento tinha acordado e que estava tudo bem. Cochilei mais um pouquinho, 8h e pouco liguei lá e logo saí para buscá-lo.

Chegando lá ele estava tranquilíssimo. Tomou café da manhã, brincou um pouco e estava me esperando. Pediu para ir para casa, mas sem desespero. Sem choro, sem drama, sem medo de que não fôssemos buscá-lo. Passou no teste!

Ah, uma coisa importante: eu fiquei es-tra-ga-da. E olha que nem bebo nada, só tomei 1 taça de espumante. Mas o sair, voltar tarde, não dormir direito... Quem tem filho não tem como sair à noite e achar que vai dormir até meio-dia e passar à base de doritos depois. Parecia que eu estava com gripe, com dor no corpo todo. E o dia seguinte vem que vem, com filhote querendo brincar, tendo que almoçar e todo o restante correndo normalmente. Fiz uns sanduíches, deixei ele brincar com os amigos da vizinhança e assim foi.

E foi assim que, depois de quase 5 anos, eu e marido conseguimos uma noite só nossa. Com ajustes, com filhote pra buscar e cuidar depois, mas deu para curtir. Mesmo que esporadicamente... existe vida social pós-filhos!

11 de abril de 2014

A vida social antes e depois dos filhos - parte 1

Sexta-feira, fim de semana chegando. Para a maioria dos pais, principalmente de crianças pequenas, fim de semana quer dizer ficar com as crianças. Pode ser em casa mesmo, pode ser em um passeio, em uma viagem rápida, uma visita familiar. Mas dificilmente os pais terão grandes períodos só deles, com privacidade e fazendo coisas de adulto. Quem tem criança sabe que os pequenos exigem muito de nosso tempo.

Na vida pré-filhos, fim de semana eu aproveitava para descansar, ler, ver filmes, às vezes até trabalhava. Mas a diferença básica para hoje é que eu ficava por mais tempo fazendo essas coisas. Via 2 ou 3 filmes, lia páginas e páginas de um livro, dormia e acordava a hora que eu quisesse. E uma outra diferença marcante: era quando saía à noite, com outros adultos. Ia a uma festa, um barzinho, um churrasco, sem hora para voltar. E olha que nunca fui baladeira, longe de mim. Na maioria das vezes, preferia ficar em casa mesmo. O que quero dizer é que não havia preocupação com horário, nem com volume do som, nem com cardápio.

Já na vida pós-filhote, muita coisa precisou ser adaptada. Agora, com Bento prestes a completar 5 anos (mas jááá??), consigo ver filmes inteiros, ler mais e não preciso levantar tão cedo de manhã. Já sair à noite ou em programas não adequados a crianças... isso se tornou bem raro.

"Não entendo como as pessoas deixam seus filhos quando são pequenos. Eu sigo aqui dizendo, 'ei, você terá vida social daqui a mais ou menos uns 18 anos...'"

O que fizemos ao nos tornarmos pais foi adaptar nossa vida ao que poderíamos ou não fazer com Bento. Já aconteceu dele cochilar fora de casa e de ir dormir bem mais tarde que o usual. Mas são situações esporádicas. E, na minha opinião, é até saudável que a criança participe desses programas, com certos limites claro.

Uma coisa importante é: não tínhamos opções de alguém para ficar com ele em casa ou de deixá-lo na casa de alguém. As avós moram em outra cidade. Algumas tias moram aqui, mas realmente longe, coisa de mais de 1 hora de distância.O ideal seria ter alguém que dormisse em nossa casa, pois Bento ainda hoje às vezes no chama no meio da noite. Por fim, não me sinto muito à vontade também com babás, a menos que seja indicação de alguém em quem eu confie.

Tudo isso limitou nossas opções e, por isso, só saímos em programas de adulto se fosse possível levar filhote junto. Nunca mais fui a uma danceteria, por exemplo. Não vamos em lugares fechados demais, com som alto, bebidas a rodo. Mas fomos a casamentos e casas de amigos, por exemplo, e o levamos junto. Nessas situações, sempre voltamos relativamente cedo, nunca ficamos madrugada afora com ele na rua. Há que se ter um espaço para ele brincar, correr e não incomodar as outras pessoas. E se houver outras crianças também, perfeito.

Enfim, tudo isso para contar que demos nosso jeito de continuar tendo vida social adulta, ainda que esporádica. Não deixamos de ver nossos amigos, nem de termos nosso lazer. Apenas reduzimos a frequência e nos adaptamos, como tudo o mais que se deve reorganizar quando se tem filhos.

Até que (e vou ter que dividir o post, que a conversa está ficando longa)... surgiu uma oportunidade e Bento dormiu, pela primeira vez, fora de casa sem a gente. E nós ganhamos nosso primeiro vale night.


(continua)

24 de março de 2014

As mães da porta da escola

 

Toda escola reúne, em algum momento do dia, um mar de mães, pais e responsáveis. Às vezes o pequeno aglomerado se forma nos minutos anteriores ao início da aula. Em outras, a muvuca acontece no momento da saída dos alunos.

É nessa hora que podemos conversar um pouco com os familiares das crianças. É ali, na porta da escola, que ficamos conhecendo quem é a mãe de fulano e pai de ciclano. Podem até surgir amizades. Vemos até mesmo uma amostra do comportamento daqueles que são responsáveis pelas crianças.

Há os pais carinhosos, que recebem o filho com abraços e carinhos.

Há os pais apressados, que buscam os filhos com horário contado e não são de muita conversa.

Há o avô que busca o neto e espera ele brincar com o cachorro da casa vizinha à escola antes de irem embora.

Há a mãe que, todo dia, para em fila dupla e diz "é rapidinho, já estou saindo", como se só ela tivesse pressa e só ela pudesse atrapalhar o trânsito.

Há a mãe que busca o filho dela e mais duas crianças, de parentes ou vizinhos. A motorista do dia.

Há a mãe que busca o filho de bicicleta e o coloca numa cadeirinha, instalada no guidão, para levá-lo para casa.

Há a mãe que aproveita para levar os artesanatos que produz; quem sabe, consegue uma venda ou outra.

Há a mãe que busca o filho com roupa de academia, toda sarada.

Há a mãe que chega cheirando a cebola, do almoço que preparou e que espera o filho em casa.

Há mães, pais, tios, avós. Há perueiros e perueiras. Há até irmãos mais velhos.

E há aquela que posso dizer que é quase uma amiga. Uma moça que, todos os dias, busca o melhor amigo de Bento. Os dois fazem uma "corrida" da porta da escola até onde estaciono nosso carro, brincam com os cachorros do caminho, colhem flores, coletam pedrinhas. E eu e a moça trocamos ideias, conversamos, comentamos sobre os meninos.

Essa é a pessoa com quem mais converso ali, na frente da escola. É a mais simpática e que está sempre disponível. Que, aliás, não é a mãe do menino que busca. Minha amiga de porta de escola é a babá.

(imagem daqui)

21 de março de 2014

Projeto Leitura: No Escuro

E para começar bem a sexta-feira, uma dica de suspense do Projeto Leitura.

No Escuro
Elizabeth Haynes

Catherine aproveitou a vida de solteira por tempo suficiente para reconhecer um excelente partido quando o encontra: lindo, carismático, espontâneo... Lee parece bom demais para ser verdade. Com o tempo, porém, o homem louro de olhos azuis que parece o sonho de qualquer mulher revela-se extremamente controlador. Amedrontada pelo jeito cada vez mais estranho de Lee, Catherine tenta terminar o relacionamento, mas, ao pedir ajuda aos amigos, descobre que ninguém acredita nela. Sentindo-se no escuro, ela planeja meticulosamente como escapar dele. Quatro anos mais tarde Catherine, agora Cathy, tenta reconstruir a vida em outra cidade. Ela tornou-se uma pessoa bastante diferente: obsessivo-compulsiva, vive com medo e insegura. Seu novo vizinho, Stuart, a incentiva a enfrentar seus temores, até que um telefonema inesperado muda tudo. Ousado e poderoso, convincente ao extremo em seu retrato da obsessão, No escuro é um thriller arrebatador. (sinopse do Skoob)


Escolhi este livro para o Desafio Literário que estou participando. O tema de março é suspense e, apesar de eu ter mais de um livro deste tema na estante, queria ler algum de um autor que fosse novo para mim. Aí lembrei deste que emprestei de uma amiga e passei na frente.

No Escuro tem uma estrutura diferente e inédita para mim: a alternância de tempo concomitante da personagem. Explico.

O livro começa com um trecho do julgamento de Lee, sem ainda sabermos exatamente do que se trata. Na sequência, uma morte é rapidamente narrada. E então, somos apresentados à personagem principal e narradora da história.

Catherine é uma mulher livre e dona do seu nariz. Vive a vida com naturalidade e despreocupação, saindo com suas amigas, bebendo, trabalhando, curtindo. Não se prende a nenhum namorado, veste-se como quer, é feliz. Catherine vive.

Cathy é triste, receosa, fechada em si mesma. Vive sozinha em seu apartamento e, seguindo as regras de seu TOC, de lá só sai para fazer compras em dias pares. Conta os passos até o ponto de ônibus, olha da rua se as cortinas permanecem simetricamente arrumadas como ela deixou, verifica seis vezes (sempre seis) se as portas e trancas estão fechadas. Cathy sobrevive.

Catherine e Cathy são a mesma pessoa, separadas por um trauma: a vida antes e depois de Lee. E essa separação, essa divergência de personalidade entre as duas que as faz parecer serem pessoas distintas (e que, no fim, não deixam de ser) é trabalhada de uma forma como eu nunca tinha visto. Não há capítulos muito longos, nem "parte 1" ou "parte 2", para enfatizar o espaço temporal. Não. Cathy e Catherine contam a história alternadamente em capítulos curtos, um após o outro, às vezes até na mesma página.

Essa estrutura confere um ritmo ao livro que combina perfeitamente com a angústia que a personagem sente. Ao mesmo tempo em que vemos Catherine se transformar em Cathy por tudo que vem a passar, vemos Cathy tentando se livrar do TOC, fazendo terapia, conhecendo pessoas novas.

O grande responsável por essa mudança na vida de Catherine é Lee. Atraente, sensual, misterioso, Lee logo conquista Catherine e todos os seus amigos. Mas o que parecia ser um sonho logo vira realidade, com Lee mostrando seu poder manipulador e controlador. Catherine, então livre e dona de si mesma vai, aos poucos, perdendo as rédeas de sua vida.

O sentimento que mais define esse livro, para mim, foi angústia. Angústia por sabermos que Catherine sofrerá algo tão aterrador que a fez se transformar, se fechar. Angústia por sabermos o tamanho do sofrimento que ela passou, mas por não sabermos se conseguirá vencê-lo. Angústia por saber que Lee não é o que parece, mas por não sabermos de imediato do que ele foi capaz, ou se irá voltar.

Enfim, um thriller psicológico muito bem construído, tanto na história como na escrita. Incrível como a autora conseguiu distinguir tão bem um tempo do outro, a personalidade de Catherine e a personalidade de Cathy, de forma gradual e simultânea. Este se tornou um dos melhores livros de suspense que li. Recomendadíssimo.

13 de março de 2014

Profissional em crise

Já contei aqui no blog algumas vezes sobre minha vida profissional. Sou publicitária de formação, mas não exerço essa profissão já há alguns anos. Um tempo atrás, comecei a trabalhar com tradução e tomei essa área para mim. Desde então, já trabalhei fora, como revisora e tradutora em agências e como gerente de tradução. Quando Bento estava com 2 anos e pouco, optei pela vida de freelancer, abrindo mão do salário fixo para trabalhar em casa e ficar mais tempo perto do meu filho.


Essa vida de freela é bastante instável. As vantagens são fazer a própria agenda, poder folgar em dias de semana, não precisar me deslocar diariamente no trânsito da cidade, não precisar dar satisfação pra chefe quando preciso faltar porque filho ficou doente. Já as desvantagens são não ter um rendimento certo no fim do mês, trabalhar de fim de semana/ feriado (nem sempre, mas acontece bastante), e até ficar sem trabalho às vezes.

Optei por esse caminho por querer acompanhar o crescimento de Bento. Essa flexibilidade me permite levá-lo e buscá-lo da escola, que é em meio-período. Posso eu mesma fazer almoço para ele, acompanhar o que ele come/ não come. Posso brincar no meio do dia, acompanhar lição de casa, colocar para dormir.

"mães que ficam em casa fazem tudo sem intervalo!"

Mas tenho sentido ultimamente o baque da má remuneração e da falta de reconhecimento. Não que vivamos com altos luxos por aqui não. Temos uma vida comum, com prestação de casa e outras contas para pagar. Mas a instabilidade pesa, principalmente na hora de fazer planos em longo prazo. E a remuneração é bem ruim nesse mercado de tradução em geral. São prazos apertados para trabalhos grandes, muitas vezes com termos técnicos e difíceis, que demandam tempo de pesquisa. E o pagamento é bem baixo (e não sou só eu que digo isso, mas todos os tradutores que conheço).


Outra coisa que tem me chateado é a falta de reconhecimento. Não estudei letras nem tradução, mas inglês. Fui aperfeiçoando a técnica com o tempo e aprimorando meu vocabulário. Faço pesquisas, monto glossários. Sei que faço o trabalho direitinho, sem falsa modéstia. Mas somos tratados como "mais um", ou "meu vizinho estudou inglês e faz o mesmo trabalho por menos".

Esse nivelamento por baixo mata. Não é certo disperdiçar experiência e conhecimento de quem estuda e se dedica. Não é certo eu receber o mesmo que quem fez 2 anos de curso de inglês. Traduzir não é simples. Estamos falando de textos escritos, com estrutura, coerência, padronização. Não se trata de apenas jogar no Google Translator e achar que o texto sai pronto. Há toda uma gama de termos específicos das áreas, que só quem trabalha com isso conhece. Há a experiência de se conhecer o tipo de documento e saber como os clientes costumam redigi-los. Há a prática de se fazer páginas e páginas em um único dia.

Tenho discutido sobre isso com amigas tradutoras e em casa, com marido. Tenho pensado em opções, que vão desde continuar na área fazendo pequenos ajustes até abandoná-la e partir para outra. Mas não gostaria de voltar a trabalhar o tempo todo fora de casa, longe do filhote e enfrentando a correria dessa cidade maluca.


Não tenho respostas agora, apenas questionamentos. De alguém que tem contas a pagar, como todo mundo. Que é mãe e quer ficar perto do filho. Que gosta do que faz, mas quer qualidade de vida e reconhecimento profissional, como qualquer um.

imagens: Google imagens.
 
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